Eu não consigo contar essa história sem me emocionar. Sempre que penso em obediência, penso em dois suecos pobres, de mãos calejadas, que atravessaram o Atlântico atrás de uma palavra que nem eles entendiam completamente.
Gunnar Vingren nasceu em 1879, na Suécia, e havia se tornado pastor batista em South Bend, no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Daniel Berg nasceu em 1884, em Vargön, também na Suécia, e emigrou para a América em 1902. Deus os aproximou em 1909, numa conferência em Chicago, e ali começou uma amizade que a história da igreja no Brasil nunca esqueceria.
A palavra que ninguém entendeu
Em julho de 1910, numa reunião de oração em South Bend, um irmão chamado Adolfo Uldin recebeu uma palavra profética. Nela havia um nome estranho, difícil de pronunciar para uma língua sueca: “Pará”. Vingren e Berg não sabiam o que era aquilo. Podia ser uma pessoa, uma cidade, um povo. Foram a uma biblioteca pública, abriram um mapa e descobriram: Pará era um estado no norte do Brasil, cortado por rios, coberto de floresta, do outro lado do mundo.
Perceba a lição, amado leitor: a obediência veio antes do entendimento. Eles não pediram confirmação em forma de conforto, nem passagem paga, nem garantia de sucesso. Simplesmente foram.
Cinco de novembro de 1910
Em 5 de novembro de 1910 embarcaram em Nova York, no navio Clement, viajando de terceira classe, no porão. Em 19 de novembro de 1910 desembarcaram em Belém do Pará. Não conheciam ninguém. Não falavam a língua. Não tinham missão que os sustentasse.
Foram acolhidos por irmãos batistas da cidade e recolhidos ao porão de uma igreja. Daniel Berg foi trabalhar numa fundição para sustentar os dois enquanto Gunnar Vingren se dedicava a aprender português e à Palavra. Escrevo isso com lágrimas: os pioneiros do maior avivamento da nossa terra trabalhavam de dia com as próprias mãos para pregar de noite.
Deus raramente escolhe os que se acham prontos. Ele escolhe os que estão disponíveis.
O preço da mensagem
Quando começaram a pregar sobre o batismo com o Espírito Santo e o falar em línguas, a reação veio. Em junho de 1911, eles e cerca de dezoito membros foram desligados da igreja batista onde estavam. Não houve escândalo, não houve revolta. No dia 13 de junho de 1911, aquele pequeno grupo se organizou como Missão da Fé Apostólica. Em 1918, passou a se chamar Assembleia de Deus.
Dezenove pessoas. Uma casa simples em Belém. Nenhum recurso. E dessa semente nasceu a maior denominação evangélica do Brasil, presente hoje em cada canto deste país, da periferia das grandes capitais às comunidades ribeirinhas onde só se chega de barco.
O que isso fala comigo e com você
Daniel Berg morreu em 1963, na Suécia. Gunnar Vingren voltou doente ao seu país e morreu em 1933, com apenas 54 anos. Nenhum dos dois viveu o suficiente para ver o tamanho do que Deus fez. E aqui está o que mais me quebra: eles não plantaram para colher, plantaram para obedecer.
Quantas vezes queremos ver o fruto antes de dar o primeiro passo? Quantas vezes exigimos de Deus o mapa completo, quando Ele só nos deu uma palavra? Se dois suecos pobres com um nome estranho no coração puderam mudar a história de uma nação, o que Deus pode fazer com a sua obediência hoje?
Que o Senhor levante nesta geração homens e mulheres com o espírito de Berg e Vingren: gente que não negocia a chamada, que não espera conforto para servir e que crê que a Palavra vale mais do que a segurança.
