Toda vez que eu prego sobre o derramamento do Espírito, penso num endereço simples de Los Angeles: Azusa Street, 312. Um prédio velho, sem torre, sem vitral, sem beleza. Ali Deus escolheu começar aquilo que hoje alcança centenas de milhões de pessoas no mundo — inclusive nós, no Brasil.

O homem que Deus escolheu

William Joseph Seymour nasceu em 2 de maio de 1870, em Centerville, na Louisiana, filho de escravos libertos. Cresceu na pobreza do sul dos Estados Unidos, no auge das leis de segregação. Uma varíola o deixou cego de um olho. Não tinha diploma, não tinha dinheiro, não tinha nome.

Em 1905, em Houston, no Texas, ele quis aprender com Charles Parham sobre o batismo com o Espírito Santo. Por ser negro, não podia sentar na sala de aula. Ouvia as lições do lado de fora, pela porta ou pela janela. Guarde essa imagem: o principal instrumento do maior avivamento do século XX aprendeu do corredor.

Bonnie Brae e depois Azusa

Convidado a pregar em Los Angeles em 1906, Seymour foi barrado da igreja que o chamou por insistir na doutrina do batismo com o Espírito. Acabou hospedado numa casa da Bonnie Brae Street, onde passou a orar com um grupo pequeno. Em 9 de abril de 1906, o derramamento começou: pessoas falaram em outras línguas, e a notícia correu tão rápido que a varanda da casa cedeu com o peso da multidão.

Precisaram de um lugar maior. Alugaram um prédio abandonado na Rua Azusa, 312, antiga igreja metodista que servia de estábulo e depósito. Puseram bancos improvisados, tábuas sobre caixotes, e o púlpito era feito de duas caixas de sapatos empilhadas.

Deus não estava procurando um templo bonito. Estava procurando um coração disponível.

Três anos de fogo

De 1906 a 1909, aquele galpão teve reuniões praticamente ininterruptas, várias vezes ao dia, todos os dias. Não havia programa impresso, nem ordem de culto rígida, nem hora de encerrar. As pessoas vinham de todo o país e de outros continentes. Missionários saíam de lá para a Índia, a China, a África, a América do Sul, a Europa.

E houve algo ainda mais escandaloso para 1906: em plena segregação racial, brancos e negros oravam juntos, no mesmo chão, abraçados. Frank Bartleman, que registrou aqueles dias, escreveu a frase que até hoje me arrepia: em Azusa, a linha de cor foi lavada no sangue.

O que a Azusa nos ensina — e nos cobra

Primeiro, que o avivamento é obra de Deus, não produto de marketing. Ninguém fez campanha para aquilo acontecer.

Segundo, que humildade é o solo do derramamento. Seymour era um homem manso, que orava com a cabeça dentro de uma caixa de madeira para não se distrair. Quando o movimento cresceu, ele foi sendo deixado de lado, inclusive por antigos aliados, e viu divisões e disputas raciais ferirem o que Deus havia unido. Morreu em 1922, pastoreando um grupo pequeno, quase esquecido.

Terceiro, e mais importante: se o Espírito derrubou o preconceito em 1906, que direito temos de reconstruí-lo em nossas igrejas hoje? Não existe avivamento verdadeiro que aumente a distância entre irmãos. Onde há divisão de classe, de cor, de origem, ali o fogo já esfriou.

Quatro anos depois de Azusa, dois suecos desembarcaram em Belém do Pará e um italiano pisou no Brás. O fogo que começou naquele estábulo chegou ao nosso país. Nós somos, literalmente, fruto daquele avivamento.