Se há uma biografia que todo obreiro deveria ler de joelhos, é a de John Wesley. Porque ela nos ensina algo incômodo: é possível ser religioso, disciplinado, zeloso, ordenado ao ministério — e ainda não ter encontrado Cristo.
O tição arrancado do fogo
Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, em Epworth, na Inglaterra, um dos muitos filhos do reverendo Samuel e de Susanna Wesley. Em 1709, a casa pastoral pegou fogo à noite. O menino de cinco anos foi resgatado de uma janela do andar superior, no último instante. Pelo resto da vida ele se referiu a si mesmo como “um tição arrancado do fogo”, citando Zacarias. Sua mãe entendeu ali que aquele filho tinha um propósito.
Disciplina sem vida
Em Oxford, ele e o irmão Charles lideraram o chamado Clube Santo: jejuavam, visitavam presos, socorriam pobres, estudavam a Bíblia em horários rígidos. Os colegas os apelidaram de metodistas, por causa do método. Depois, John foi como missionário para a colônia da Geórgia, na América, entre 1735 e 1737. Foi um fracasso doloroso. Ao voltar, escreveu no diário a frase mais honesta que já li de um ministro: fui à América converter os índios, mas quem me converterá a mim?
Vinte e quatro de maio de 1738
De volta a Londres, foi ajudado por irmãos morávios, especialmente Peter Böhler, que o pressionou com uma pergunta simples sobre fé pessoal. Na noite de 24 de maio de 1738, numa reunião de uma sociedade morávia na Aldersgate Street, alguém lia em voz alta o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. E então aconteceu. Wesley registrou: senti meu coração estranhamente aquecido. Ele confiou, ali, que Cristo havia levado os seus pecados, os dele mesmo.
Wesley não ganhou um método naquela noite. Ganhou um coração.
O que a graça fez de um homem convertido
O que veio depois é quase inacreditável. A partir de 1739, encorajado por George Whitefield, começou a pregar ao ar livre — nos campos, nas praças, nas bocas de minas de carvão de Kingswood, para mineiros de rosto sujo de fuligem que nunca entrariam numa catedral. Pregou por mais de cinquenta anos, percorrendo a Inglaterra a cavalo, milhares de sermões, muitas vezes duas ou três vezes ao dia, começando às cinco da manhã para alcançar o operário antes do turno.
Organizou os convertidos em classes e sociedades com prestação de contas mútua — e é aqui que muitos avivamentos modernos falham. Wesley não se contentou com emoção: ele discipulou. Combateu o alcoolismo, cuidou de órfãos, criou dispensários para pobres e foi voz contra a escravidão até seus últimos dias.
A herança que chegou até nós
Do metodismo nasceu o movimento de santidade do século XIX. Do movimento de santidade nasceu, em larga medida, o ambiente espiritual do qual brotou o pentecostalismo do século XX — inclusive o fogo que chegou ao Brasil em 1910. Quando você levanta as mãos num culto hoje, há uma linha invisível que liga esse momento à noite em que o coração de um inglês foi aquecido.
Irmão, ministro, líder: cuidado com o método sem coração. Cuidado com o púlpito sem intimidade. Peça hoje ao Senhor o que Wesley recebeu: não mais atividade, mas mais fogo.
