Se eu pudesse escolher assistir a um único culto na história da igreja, talvez escolhesse uma manhã de 1739 nas minas de carvão de Kingswood, na Inglaterra. Porque foi ali que George Whitefield fez algo que ninguém tinha coragem de fazer: pregou fora do templo.
O filho da estalagem
Whitefield nasceu em 16 de dezembro de 1714, em Gloucester, na Inglaterra. A família era dona de uma estalagem e ele trabalhava servindo mesas. Não veio da nobreza nem da academia. Entrou em Oxford como servidor de estudantes ricos, para pagar os estudos, e ali se aproximou de John e Charles Wesley no Clube Santo.
Converteu-se depois de uma longa luta espiritual e, ainda muito jovem, começou a pregar com uma intensidade que assustava. Sua mensagem tinha um centro: é necessário nascer de novo. Ele repetiu isso tantas vezes que alguém lhe perguntou por que insistia; a resposta foi simples: porque é necessário nascer de novo.
Quando as portas se fecharam
As igrejas anglicanas começaram a barrar seu púlpito. Em fevereiro de 1739, ele tomou uma decisão que mudaria o evangelismo para sempre: foi para Kingswood, região de mineração perto de Bristol, e pregou a céu aberto para os mineiros. Homens que a sociedade tratava como animais ouviram, e as lágrimas abriram sulcos brancos no carvão de seus rostos. Whitefield escreveu que aquilo o marcou pelo resto da vida.
Se o povo não vem ao templo, o templo vai ao povo. Isso não é estratégia moderna: é obediência antiga.
Foi ele quem convenceu Wesley, inicialmente resistente à ideia, a pregar nos campos também. Sem esse empurrão, o metodismo talvez nunca tivesse alcançado as massas.
Trinta e três anos sem parar
Whitefield cruzou o oceano treze vezes entre a Inglaterra e a América, numa época em que cada travessia levava semanas e podia matar. Pregou milhares de sermões em pouco mais de três décadas, muitas vezes várias vezes ao dia, para multidões enormes ao ar livre. Benjamin Franklin, que não era crente, ficou tão intrigado com o alcance da sua voz que fez suas próprias medições na Filadélfia e concluiu que dezenas de milhares poderiam ouvi-lo — e Franklin acabou se tornando seu amigo e editor.
Ele pregou a escravizados, a indígenas, a marinheiros, a prisioneiros. Sustentou um orfanato na Geórgia por décadas, tirando o dinheiro das próprias ofertas. E não fundou denominação nenhuma; disse que não queria construir um partido, mas ver almas salvas.
Duas lições que me perseguem
A primeira: Whitefield e Wesley discordaram teologicamente em pontos sérios, e a certa altura isso os separou. Mas Whitefield instruiu que Wesley pregasse no seu funeral. Quando alguém lhe perguntou se veria Wesley no céu, respondeu que provavelmente não, porque Wesley estaria tão perto do trono que ele não o alcançaria com a vista. Que resposta! Discordar sem destruir é sinal de maturidade espiritual.
A segunda: ele morreu em serviço. Em 30 de setembro de 1770, em Newburyport, na América do Norte, exausto, tendo pregado até o fim. Costumava dizer que preferia se gastar a enferrujar.
Deus não nos chamou ao conforto. Chamou-nos ao campo. E o campo, quase sempre, está fora das nossas paredes.
