Depois de olharmos tanto para o passado, eu quero olhar com você para o mapa de hoje. Porque história de missões que não vira responsabilidade é apenas entretenimento espiritual.

O que é a Janela 10/40

O termo foi apresentado por Luis Bush, missiólogo latino-americano, em 1989, no congresso Lausanne II, em Manila. Ele chamou a atenção para uma faixa retangular do globo situada entre os paralelos 10 e 40 graus ao norte do Equador, indo do oeste da África, atravessando o Oriente Médio e a Ásia Central, até o leste da Ásia.

Por que essa faixa? Porque nela está concentrada:

  • a esmagadora maioria dos povos não alcançados, aqueles que não têm igreja local capaz de evangelizar o próprio povo;
  • o coração geográfico do islamismo, do hinduísmo e do budismo;
  • grande parte da pobreza extrema, do analfabetismo e da negação de liberdade religiosa do mundo;
  • e, historicamente, a menor parcela dos recursos e obreiros da igreja mundial.
É desconfortável dizer, mas é verdade: a igreja global sempre investiu mais onde já havia igreja.

O conceito não é uma doutrina, é uma ferramenta de foco. E ele fez o que precisava fazer: incomodou. Depois dele surgiram os grandes movimentos de adoção de povos, de pesquisa missiológica e de mobilização por etnias específicas.

O Brasil muda de lado no mapa

Agora a parte que me enche de gratidão e de peso ao mesmo tempo.

No século XIX, o Brasil era campo. Simonton, Kalley, os missionários metodistas, batistas e, no século XX, Berg e Vingren, todos chegaram aqui como enviados de outros povos. Nós fomos alcançados.

No século XX, a virada aconteceu. Marcos importantes desse caminho:

  • 1975: nasce a Missão Antioquia, uma das pioneiras de missões transculturais genuinamente brasileiras.
  • Formação e fortalecimento da Associação de Missões Transculturais Brasileiras, articulando as agências nacionais.
  • 1987: o primeiro congresso COMIBAM, em São Paulo, reúne líderes de toda a Ibero-América sob uma convicção nova: a América Latina deixou de ser apenas campo, passou a ser força missionária.

Hoje o Brasil envia milhares de missionários a dezenas de países, e figura entre as maiores nações enviadoras do mundo. Brasileiros estão em países islâmicos, na Ásia, na África, na Europa secularizada, muitos deles em contextos de acesso restrito, onde não se pode nem dizer a palavra “missionário”.

As nossas vantagens — e os nossos pecados

O brasileiro tem dons naturais para o campo: adaptabilidade, calor humano, resistência à dificuldade, facilidade com idiomas, e um passaporte que abre portas onde o americano e o europeu encontram desconfiança.

Mas sejamos honestos sobre as nossas falhas:

  • Enviamos sem sustentar. Muitos voltam do campo por falta de suporte financeiro constante, não por falta de chamada.
  • Enviamos sem preparar. Entusiasmo sem formação transcultural produz frustração e, às vezes, dano.
  • Enviamos sem cuidar. Não damos acompanhamento pastoral, cuidado emocional nem plano de retorno.
  • Falamos muito de avivamento e pouco de povos não alcançados.

O que a sua igreja pode fazer nesta semana

Não é preciso ser grande para ser missionária. Toda igreja pode:

  • Adotar um povo específico e orar por ele com nome e informação, não de modo genérico.
  • Sustentar de fato um obreiro, com valor definido e pontual.
  • Ensinar missões às crianças e aos jovens, para que a chamada nasça cedo.
  • Cuidar dos que voltam, e não tratá-los como quem falhou.

Mateus 24.14 não fala de sentimento, fala de alcance: todas as nações. O Brasil recebeu de graça, por gente que morreu aqui longe de casa. Agora nos toca pagar essa dívida para frente.

Que o Senhor faça da igreja brasileira não a mais numerosa, mas a mais enviadora.