Se você me perguntar qual foi o combustível do movimento missionário moderno, eu não vou apontar para uma estratégia. Vou apontar para um relógio de oração numa aldeia alemã.

Um conde e um bando de refugiados

Nikolaus Ludwig von Zinzendorf nasceu em 26 de maio de 1700, em Dresden, na Alemanha, numa família nobre. Foi criado por uma avó piedosa, marcada pelo pietismo, e desde menino tinha uma devoção intensa a Cristo. Costuma-se atribuir a ele a frase que resume tudo: “Tenho uma só paixão: é Ele, somente Ele.”

A partir de 1722, Zinzendorf abriu suas terras na Saxônia para receber refugiados religiosos vindos da Boêmia e da Morávia — herdeiros diretos dos seguidores de Jan Hus, a antiga Unitas Fratrum, perseguidos havia séculos. Aquele povoado recebeu o nome de Herrnhut, que significa “a guarda do Senhor”.

Só que refugiado ferido é gente difícil. Em pouco tempo, a comunidade estava dividida por brigas doutrinárias e ressentimentos. Zinzendorf fez o que poucos líderes fazem: em vez de expulsar os desordeiros, passou meses visitando casa por casa, pastoreando, reconciliando, e propôs um pacto de amor fraternal.

Treze de agosto de 1727

No dia 13 de agosto de 1727, durante um culto de Santa Ceia na igreja de Berthelsdorf, aconteceu algo que os presentes descreveram como um derramamento do Espírito. Pessoas choraram, se perdoaram, se abraçaram. Ninguém soube explicar. Aquela data é lembrada como o nascimento espiritual da comunidade morávia.

E veio o fruto imediato. Em 27 de agosto de 1727, vinte e quatro homens e vinte e quatro mulheres se comprometeram a dividir entre si as vinte e quatro horas do dia, cada um tomando uma hora, para que houvesse oração ininterrupta diante de Deus.

Aquela corrente de intercessão não durou uma semana de campanha. Durou mais de cem anos.

O que a oração produziu

A partir de 1732, aquela pequena comunidade começou a enviar missionários — e o modo como fizeram isso não tem paralelo.

  • 1732: Leonard Dober e David Nitschmann partiram para a ilha de São Tomás, nas Antilhas, para pregar aos escravos africanos. Iam dispostos, se fosse necessário, a se vender como escravos para ter acesso àquele povo.
  • 1733: obreiros para a Groenlândia, entre os inuítes.
  • Depois: Suriname, África do Sul, Labrador, Índias Ocidentais, América do Norte entre os indígenas.

Em cerca de vinte anos, aquela aldeia enviou mais missionários do que todo o protestantismo havia enviado nos dois séculos anteriores. Estima-se que, no auge, cerca de um em cada sessenta membros da comunidade estava no campo missionário. Não eram teólogos famosos: eram carpinteiros, oleiros, sapateiros, que sustentavam a si mesmos com o próprio ofício.

A ponte com Wesley

E aqui a história se costura com outra que já contei. Foi um morávio, Peter Böhler, que discipulou um jovem clérigo anglicano inquieto chamado John Wesley. E foi numa reunião de uma sociedade morávia, na rua Aldersgate, em Londres, em 1738, que o coração de Wesley se aqueceu.

Ou seja: a oração de Herrnhut não gerou apenas missionários morávios. Ela ajudou a acender o metodismo, que por sua vez marcou o mundo de língua inglesa e, mais tarde, influenciou o movimento de santidade e o pentecostalismo.

Aplicação, com franqueza

Nós amamos falar de estratégia missionária. Fazemos congressos, planilhas, projeções. Está tudo bem. Mas eu pergunto: e o relógio de oração?

Uma aldeia de refugiados pobres virou a maior força missionária do seu tempo porque decidiu que o altar não ficaria vazio nem por uma hora. Se a nossa igreja tivesse esse compromisso por um ano — só um ano — eu creio que veríamos coisas que hoje só lemos em livros de história.

Sobre os teus muros pus guardas. Que Deus nos ache acordados.