Nós, brasileiros, temos o costume de falar de missões olhando para fora. Mas o Brasil foi campo missionário antes de ser país enviador — e é justo lembrar quem chorou por nós.

Ashbel Green Simonton nasceu em 20 de janeiro de 1833, na Pensilvânia, Estados Unidos. Formou-se em direito, mas foi alcançado por um avivamento e entrou no Seminário de Princeton. Foi ali, ouvindo um sermão sobre a necessidade de obreiros, que a pergunta de Isaías 6.8 se tornou pessoal para ele.

Doze de agosto de 1859

Ele desembarcou no Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859, com vinte e seis anos. O Brasil imperial era católico por lei, o protestantismo era coisa de estrangeiro, os cemitérios e os casamentos eram controlados pela Igreja oficial. Pregar o evangelho em português era, na prática, começar do zero.

Simonton fez o que todo missionário sério faz: aprendeu a língua com afinco, andou pela cidade, adoeceu de febre amarela, sarou, e começou a reunir pessoas. Seus diários — que ainda hoje comovem quem os lê — mostram um homem que lutava com solidão, com desânimo e com a sensação de fazer pouco.

O que ele levantou em oito anos

Vamos por partes, porque a lista é impressionante para um homem que trabalhou pouco mais de oito anos aqui:

  • Em 12 de janeiro de 1862, organizou no Rio de Janeiro a primeira Igreja Presbiteriana do Brasil.
  • Em novembro de 1864, fundou a Imprensa Evangélica, o primeiro jornal evangélico do Brasil, que circulou por décadas e foi decisivo para difundir o evangelho e defender a liberdade religiosa.
  • Em 1865, participou da organização do primeiro Presbitério no país.
  • Trabalhou pela formação de obreiros brasileiros, dando origem ao esforço de educação teológica que se tornaria seminário.
  • Viu o primeiro pastor brasileiro ser ordenado, José Manoel da Conceição, ex-sacerdote católico.
Ele não construiu templos grandes. Construiu estruturas que continuariam trabalhando depois da sua morte.

O preço

Simonton casou-se com Helen Murdoch em 1863. Em 1864, ela morreu poucos dias depois de dar à luz a filha do casal. Ele mandou a menina para ser criada pela família nos Estados Unidos e continuou no Brasil, sozinho.

Em 9 de dezembro de 1867, com apenas trinta e quatro anos, morreu de febre amarela, em São Paulo. Está sepultado no Brasil, na terra que adotou.

A lição para nós

Quando eu penso na igreja evangélica brasileira de hoje, com sua força, seus milhões de fiéis, sua influência, eu me lembro que ela custou vidas jovens de gente que morreu sem ver quase nada.

E aprendo três coisas com Simonton. Primeira: invista em estrutura que sobreviva a você — igreja organizada, obreiros formados, comunicação. Segunda: a fidelidade não depende do tempo de vida; ele fez em oito anos o que muitos não fazem em quarenta. Terceira: gratidão. Ser brasileiro evangélico é ser herdeiro de gente que enterrou esposa e filhos nesta terra para que nós ouvíssemos o evangelho na nossa própria língua.

Eis-me aqui, envia-me. Ele disse. E nós existimos, em parte, por causa disso.