Poucos nomes despertam tanta discussão quanto este. E poucas obras foram tão citadas por quem nunca as leu. Então vamos com calma e com respeito.

João Calvino nasceu em 10 de julho de 1509, em Noyon, na Picardia, norte da França. Foi enviado a Paris para estudar e depois a Orléans e Bourges para estudar direito, por decisão do pai. Formou-se jurista e humanista, com domínio de latim, grego e, mais tarde, hebraico. Aquela formação jurídica explica muito do seu estilo: ordem, clareza, argumento encadeado.

A conversão súbita

Ele fala pouco de si mesmo. No prefácio do comentário aos Salmos, menciona apenas que Deus, por uma subita conversio — uma conversão súbita — subjugou o seu coração obstinado e o tornou ensinável. Isso aconteceu por volta de 1533. Nada de visões, nada de espetacular no relato: apenas um coração domado.

A perseguição aos evangélicos na França o obrigou a fugir. E na fuga, com pouco mais de vinte e seis anos, ele escreveu um pequeno manual para instruir crentes simples e defender os perseguidos diante do rei Francisco I.

As Institutas: uma obra que cresceu a vida inteira

A primeira edição das Institutas da Religião Cristã saiu em março de 1536, em Basileia, com apenas seis capítulos. Era um livro de bolso.

Calvino passou os vinte e três anos seguintes ampliando e reorganizando o material. A edição latina definitiva, de 1559, tem quatro livros e oitenta capítulos; a versão francesa final saiu em 1560. A estrutura final segue o Credo Apostólico:

  • Livro I: o conhecimento de Deus, o Criador.
  • Livro II: o conhecimento de Deus, o Redentor, em Cristo — incluindo lei, pecado e a obra de Cristo.
  • Livro III: como recebemos a graça de Cristo — fé, regeneração, oração, eleição, ressurreição.
  • Livro IV: os meios externos da graça — igreja, ministros, sacramentos, governo civil.

E ela abre com uma das frases mais citadas da teologia: quase toda a soma da nossa sabedoria consiste em conhecer a Deus e conhecer a nós mesmos, sendo que uma coisa não se alcança sem a outra. É o duplex cognitio. Quem se conhece de verdade se descobre pequeno; quem conhece a Deus de verdade se descobre amado.

Teologia que não produz reverência não é teologia, é erudição.

Genebra: o campo que ele não escolheu

Calvino queria uma vida de estudo silencioso. Passando por Genebra em 1536, foi confrontado por Guilherme Farel, que praticamente o intimou em nome de Deus a ficar e ajudar na reforma da cidade. Ele ficou.

Em 1538 foi expulso de Genebra por conflitos com o conselho da cidade. Passou três anos em Estrasburgo, ao lado de Martinho Bucer — anos que ele chamou de os mais felizes da vida, pastoreando refugiados franceses. Em setembro de 1541, Genebra o chamou de volta. E ele voltou, contra a própria vontade, comparando-se a alguém indo para uma cruz.

Ficou lá até morrer, em 27 de maio de 1564. Pediu para ser sepultado sem monumento e sem nome na lápide.

O que muitos não sabem sobre ele

  • Escreveu comentários sobre quase toda a Bíblia, e são obras de exegese sobria, avessas a especulação — muitos as consideram mais valiosas que as Institutas.
  • Pregava várias vezes por semana, versículo por versículo, por anos seguidos no mesmo livro bíblico.
  • Organizou o cuidado com os pobres, com refugiados e com doentes na cidade, e defendeu a educação pública, fundando a Academia de Genebra em 1559.
  • Escrevia enquanto sofria de dores crônicas severas — chegou a ditar textos deitado, doente.

Como eu leio Calvino, sendo quem eu sou

Não preciso concordar com cada conclusão dele para aprender com o método dele. E o método é este: a Escritura governa, a razão serve, e tudo termina na glória de Deus.

Ele usava a expressão Soli Deo Gloria — a Deus somente a glória. Se a nossa teologia nos torna centro, ela falhou. Se nos coloca de joelhos, ela cumpriu Romanos 11.36.

Dele, por ele, para ele. Amém.