Quando falamos do pentecostalismo brasileiro, quase sempre lembramos de Belém do Pará. E é justo. Mas a verdade histórica é mais rica: meses antes de Daniel Berg e Gunnar Vingren chegarem ao Norte, o Espírito Santo já havia soprado no Sul e no Sudeste, por meio de um italiano de origem humilde chamado Luigi Francescon.

De Cavasso Nuovo a Chicago

Francescon nasceu em 1866, em Cavasso Nuovo, no norte da Itália. Em 1890 emigrou para os Estados Unidos, indo viver em Chicago, entre a enorme colônia italiana da cidade. Era um homem de ofício, trabalhador de mosaicos, não um teólogo de academia. Converteu-se ao evangelho e se tornou membro de uma igreja presbiteriana italiana.

Em 1907, sua vida virou. Em Chicago, na North Avenue Mission de William Durham, Francescon recebeu o batismo com o Espírito Santo. Estamos falando de apenas um ano depois do avivamento da Rua Azusa em Los Angeles. O fogo estava atravessando a América, e alcançou um imigrante italiano que ninguém conhecia.

Deus não precisa do centro do mundo para começar algo grande. Ele começa nas periferias, entre imigrantes, na língua dos pobres.

1910: o ano em que tudo mudou

Movido pelo Espírito, Francescon partiu para a América do Sul. Passou pela Argentina e, em 1910, chegou ao Brasil. Foi ao encontro dos seus, dos italianos que povoavam as lavouras e os bairros operários. Pregou em Santo Antônio da Platina, no Paraná, onde viu os primeiros frutos, e depois em São Paulo, no bairro do Brás, coração da imigração italiana.

Naquele mesmo ano nasceu a comunidade que se tornaria conhecida como Congregação Cristã no Brasil — historicamente, a primeira igreja pentecostal em solo brasileiro. Francescon não veio para ficar. Ele visitou o Brasil dezenas de vezes ao longo de décadas, sem nunca fixar residência aqui, sem nunca receber salário do trabalho, sustentando-se do próprio ofício.

A marca que ele deixou

Quem conhece a Congregação Cristã sabe reconhecer as impressões digitais de Francescon até hoje: a simplicidade no vestir e no falar, a ausência de propaganda, a centralidade do hinário, a ordem nas reuniões, a mordomia discreta e a recusa em fazer campanhas de dinheiro. Podemos ter diferenças de prática com outros ramos do corpo de Cristo — e temos — mas há aqui uma lição da qual todos precisamos: não confundir crescimento com espetáculo.

Duas frentes, um só Espírito

Eu costumo dizer aos meus alunos que 1910 foi o ano em que Deus abriu duas frentes no Brasil ao mesmo tempo, sem que uma soubesse da outra. No Norte, dois suecos em Belém. No Sul e no Sudeste, um italiano entre imigrantes. Nenhum dos três era brasileiro. Nenhum deles era famoso. Nenhum deles tinha estrutura.

Isso me humilha e me anima. Humilha, porque revela que a obra nunca foi nossa. Anima, porque significa que Deus pode usar qualquer um de nós — inclusive você, que talvez esteja lendo isso num intervalo do trabalho, achando que sua vida é pequena demais para importar.

Francescon morreu em 1964, aos 98 anos, tendo visto o que começou pequeno se espalhar por todo o continente. Não por força, nem por violência, mas pelo Espírito do Senhor.