Há homens que Deus levanta para responder a uma pergunta que uma geração inteira não sabia formular. Martinho Lutero foi um desses homens. E a pergunta que o consumia era simples e terrível: como pode um pecador ficar de pé diante de um Deus santo?
O monge atormentado
Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, na Alemanha. Filho de um trabalhador de minas, foi enviado para estudar Direito. Mas em 1505, apanhado por uma tempestade violenta, prometeu tornar-se monge se sobrevivesse. Cumpriu a promessa e entrou para o mosteiro agostiniano de Erfurt.
Ali começou o seu tormento. Ele jejuava, confessava-se por horas, castigava o próprio corpo, e nada aliviava a consciência. Anos depois escreveria que odiava a expressão “justiça de Deus”, porque só ouvia nela condenação. Tornou-se doutor em teologia e professor da Universidade de Wittenberg, ensinando Salmos, Romanos e Gálatas — e foi exatamente ali, ensinando, que a luz chegou.
Quando compreendi que a justiça de Deus é aquela pela qual o justo vive pelo dom de Deus, senti-me como se houvesse nascido de novo, e como se as portas do paraíso se abrissem diante de mim.
Trinta e um de outubro de 1517
O escândalo das indulgências foi a gota d’água. Vendia-se ao povo simples a promessa de perdão e alívio de penas por dinheiro. Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta da igreja do castelo de Wittenberg as suas 95 teses — um convite acadêmico ao debate, escrito em latim. Não era um manifesto revolucionário. Mas a imprensa recém-inventada de Gutenberg fez o que Lutero não planejou: em semanas, aquele texto estava em toda a Alemanha.
“Aqui estou”
Quatro anos depois, em 1521, na Dieta de Worms, exigiram que ele se retratasse diante do imperador Carlos V. Lutero pediu um dia para pensar e, no dia seguinte, respondeu que só se retrataria se fosse convencido pelas Escrituras. Sua consciência estava cativa da Palavra de Deus.
Declarado fora da lei, foi escondido no castelo de Wartburg. E lá, em cerca de onze semanas, traduziu o Novo Testamento para o alemão do povo. Esse é, para mim, um dos atos mais pastorais de toda a história da igreja: ele não queria apenas ganhar uma discussão, queria que a lavadeira e o camponês pudessem ler as promessas de Deus na própria língua.
O que a Reforma nos deixou
Dela vieram os cinco pilares que ainda sustentam a nossa fé: somente a Escritura, somente a fé, somente a graça, somente Cristo e glória somente a Deus. Vieram também os hinos cantados pela congregação, a leitura bíblica na língua materna e a convicção de que todo crente é sacerdote.
Lutero não era perfeito. Era duro, às vezes rude, e escreveu coisas de que nos entristecemos. Deus usa vasos de barro, e é bom lembrarmos disso quando idolatramos homens. Mas o que Ele fez através daquele monge angustiado continua ecoando: a salvação não é comprada, não é merecida e não é negociada. Ela é recebida.
Pergunto a você hoje: sua paz com Deus está apoiada no que você faz, ou no que Cristo fez? Essa é a pergunta da Reforma. E ela nunca envelhece.
