Chegamos ao texto que eu escrevo com o coração mais quente, porque essa é a minha casa.

Por muito tempo circulou uma acusação contra nós, pentecostais: que teríamos fogo mas não doutrina, experiência mas não pensamento. Em parte, a culpa foi nossa — houve gerações que confundiram estudo com esfriamento. Mas houve homens que trataram esse assunto com seriedade, e é justo apresentá-los.

Myer Pearlman: o judeu que ensinou doutrina aos pentecostais

Myer Pearlman viveu de 1898 a 1943. Nasceu em Edimburgo, na Escócia, numa família judia, e emigrou para os Estados Unidos. Converteu-se a Cristo em São Francisco, na Califórnia, depois de entrar numa missão evangélica.

Tornou-se professor no Central Bible Institute, em Springfield, no Missouri, o principal centro de formação das Assembleias de Deus americanas. Sua formação judaica lhe dava uma familiaridade natural com o Antigo Testamento e com o hebraico que enriquecia enormemente as aulas.

Em 1937 publicou Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. E aqui está a importância disso para nós: traduzido e publicado no Brasil, aquele livro se tornou um dos alicerces da formação doutrinária de milhares de obreiros brasileiros, especialmente nas Assembleias de Deus. Muito pastor do interior, que nunca pôde frequentar seminário, aprendeu Trindade, cristologia e escatologia naquelas páginas.

Pearlman morreu com apenas quarenta e cinco anos. Escreveu pouco, e o pouco atravessou o século.

Fogo sem doutrina queima a casa. Doutrina sem fogo esfria a casa. A Bíblia nos chama para as duas coisas.

Stanley Horton: a sistemática em perspectiva pentecostal

Stanley M. Horton (1916-2014) foi, provavelmente, o mais respeitado teólogo pentecostal do século XX no meio assembleiano. Formou-se em teologia e em estudos bíblicos, com formação sólida em línguas originais, e ensinou por décadas em Springfield.

Escreveu muito. Duas obras se destacam para nós:

  • O que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo: um tratado de pneumatologia que percorre o texto bíblico do Gênesis ao Apocalipse, mostrando a atuação do Espírito em toda a história da redenção.
  • Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal (1994), obra que ele editou reunindo diversos especialistas, cobrindo todos os grandes temas da doutrina cristã com fidelidade à experiência pentecostal e rigor exegético.

Essa obra foi um marco. Ela provou, com notas de rodapé e grego no lugar certo, que é possível crer no batismo com o Espírito Santo, nos dons e na cura divina, e ao mesmo tempo fazer teologia com seriedade acadêmica.

E não esqueçamos Donald Gee

Donald Gee (1891-1966), pastor pentecostal inglês, ficou conhecido como “o apóstolo do equilíbrio”. Escreveu sobre dons espirituais com uma sobriedade que ainda hoje serve de remédio: defendeu com firmeza a atualidade dos dons e, ao mesmo tempo, denunciou o exagero, o sensacionalismo e a busca de experiência por experiência.

O recado que eu quero deixar

Amado leitor, se você é pentecostal como eu, escute com carinho: estudar doutrina não apaga o fogo, ele protege o fogo. Quase todo desvio grave que vimos nos últimos anos — mercantilismo, culto à personalidade, revelações que contradizem a Escritura — encontrou terreno onde havia entusiasmo sem ensino.

Pearlman, Horton e Gee nos deixaram um caminho: reverência à Palavra, abertura ao Espírito e equilíbrio.

Que a nossa geração não precise escolher entre o Livro e o poder. Deus nunca nos pediu essa escolha.