Se você abrir qualquer manual sério de teologia sistemática em português, vai encontrar essas notas de rodapé. Vamos conhecer as pessoas por trás delas.
Francis Turretin: a precisão de Genebra
Francis Turretin viveu de 1623 a 1687, em Genebra, descendente de uma família italiana que fugiu da perseguição. Pastor e professor, escreveu entre 1679 e 1685 a obra Institutio Theologiae Elencticae — “Instituição de Teologia Elênctica”.
Aquele nome estranho, “elênctica”, quer dizer teologia feita em forma de debate: ele apresenta a questão, expõe as posições contrárias, responde uma por uma e conclui. É doutrina escrita com técnica de tribunal, com uma clareza que impressiona até hoje.
Esse livro atravessou o Atlântico e se tornou o manual oficial de teologia do Seminário de Princeton, em latim, até a segunda metade do século XIX. Gerações de pastores americanos aprenderam doutrina lendo um genebrino morto havia quase duzentos anos.
Charles Hodge: cinquenta e sete anos na mesma cadeira
Charles Hodge nasceu em 27 de dezembro de 1797 e morreu em 19 de junho de 1878. Ensinou em Princeton por cerca de cinquenta e sete anos e passaram por suas aulas aproximadamente três mil alunos — uma influência difícil de medir.
Sua obra maior é a Teologia Sistemática, em três volumes, publicada entre 1871 e 1873. É densa, ordenada, cheia de interação com a filosofia e a ciência do seu tempo. Hodge tratava a teologia como ciência indutiva: assim como o cientista trabalha com os fatos da natureza, o teólogo trabalha com os fatos revelados nas Escrituras.
Dele veio a frase mais citada e mais mal compreendida daquela escola: que nenhuma ideia nova jamais se originou naquele seminário. Os críticos usaram isso para acusá-lo de estagnação. Ele queria dizer outra coisa: que a função de um seminário não é inventar doutrina, e sim transmitir fielmente aquilo que foi entregue.
Nas coisas de Deus, originalidade quase sempre é sinônimo de heresia.
B. B. Warfield e a batalha pela Palavra
Benjamin Breckinridge Warfield (1851-1921) sucedeu essa tradição em Princeton no auge do ataque liberal às Escrituras. Foi ele quem articulou com mais rigor a doutrina da inspiração verbal e plenária: as Escrituras são, ao mesmo tempo, plenamente escritas por homens reais em contextos reais e plenamente inspiradas por Deus, sem erro no que afirmam.
Ele fez isso enquanto cuidava, por quase quarenta anos, da esposa inválida, praticamente sem sair de casa a não ser para as aulas. Doutrina firme, escrita por um homem que carregava uma cruz silenciosa.
O que essa escola nos deixa
- Ordem importa. A doutrina precisa ser ensinada de forma organizada, e não em fragmentos aleatórios conforme o tema da semana.
- A Escritura é a fonte, não o complemento. Teologia se faz recolhendo os dados da revelação, não partindo da experiência para depois procurar versículo.
- Continuidade é virtude. Cinquenta e sete anos na mesma sala, com o mesmo compromisso, formando um pastor por vez. O reino se constrói mais com constância do que com estardalhaço.
- Defender a Bíblia é trabalho de cada geração. O ataque muda de roupa, mas volta sempre.
Conserve o bom modelo das sãs palavras. Nossa tarefa não é criar um evangelho novo, é entregar intacto o que recebemos.
