Quando eu quero lembrar o que significa entregar a vida, penso num escocês magro, marcado por febres, dormindo em barracas, escrevendo diários à luz de vela no meio da África.
David Livingstone nasceu em 19 de março de 1813, em Blantyre, na Escócia, numa família pobre. Aos dez anos já trabalhava numa fábrica de algodão, catorze horas por dia. E aqui está o detalhe que me humilha: ele prendia livros na máquina para ler enquanto trabalhava, e estudava à noite. Foi assim que se tornou médico.
“A fumaça de mil aldeias”
Livingstone queria ir para a China, mas a Guerra do Ópio fechou as portas. Foi então para a África, chegando à estação de Kuruman em 1841. Ali, ouvindo de veteranos sobre planícies onde se via a fumaça de aldeias onde nenhum missionário havia pisado, sua vocação se definiu: ele não seria um pastor de estação, seria um abridor de caminhos.
Atravessou o continente. Em 16 de novembro de 1855, foi o primeiro europeu a ver as grandes quedas do rio Zambeze, que ele nomeou Cataratas Vitória — os africanos já as chamavam de “a fumaça que troveja”. Mapeou rios, registrou línguas, descreveu povos. Mas nunca explorou por esporte. Explorava para abrir estradas por onde o evangelho e o comércio honesto pudessem entrar.
Ele não queria descobrir a África. Queria que a África encontrasse Cristo.
A ferida que ele não conseguia esquecer
O que quebrou Livingstone foi o tráfico de escravos. Ele viu caravanas de homens, mulheres e crianças acorrentadas pelo pescoço, cadáveres largados nas trilhas, aldeias queimadas. Escreveu sobre isso com uma indignação que ainda arde no papel, e passou a denunciar aquilo na Europa com todas as forças. Sua voz foi decisiva para pressionar o fim daquele comércio no interior da África Oriental.
Perdeu a esposa Mary em 1862, vítima de febre, e a sepultou às margens do Zambeze. Continuou.
“Doutor Livingstone, eu presumo?”
Nos últimos anos, ele desapareceu do contato com a Europa. Em 1871, o jornalista Henry Morton Stanley o encontrou em Ujiji, no lago Tanganica, doente, magro, sem suprimentos, e o cumprimentou com a frase que se tornou famosa. Stanley ofereceu levá-lo de volta para casa. Livingstone recusou. Ainda havia trabalho.
Na manhã de 1º de maio de 1873, seus companheiros o encontraram na cabana de Chitambo, no atual território da Zâmbia, ajoelhado ao lado da cama, morto em posição de oração.
Mil e quinhentos quilômetros de lealdade
E então aconteceu uma das cenas mais bonitas da história missionária. Seus companheiros africanos Chuma e Susi retiraram e enterraram o coração dele debaixo de uma árvore de mpundu, ali mesmo, dizendo que aquele coração pertencia à África. Depois embalsamaram o corpo à sua maneira e o carregaram a pé por cerca de mil e quinhentos quilômetros, durante nove meses, atravessando território hostil, para entregá-lo aos ingleses no litoral.
Livingstone foi sepultado na Abadia de Westminster, em Londres. Mas o coração ficou na terra pela qual ele chorou.
Uma pergunta que eu faço a mim mesmo
Onde está o meu coração sepultado? Pelo que eu me gastei tanto que, se me tirassem dali, uma parte de mim ficaria?
Livingstone escreveu que nunca havia feito sacrifício algum — que sacrifício foi o de Cristo. Homens assim não se explicam por talento. Se explicam por amor.
