Eu tenho um carinho especial por essa história porque ela começa numa oficina de sapateiro. Não num palácio, não num seminário, não num concílio de doutores. Numa bancada de couro e martelo.

William Carey nasceu em 17 de agosto de 1761, em Paulerspury, na Inglaterra. Filho de tecelão, aprendiz de sapateiro, quase sem estudo formal. Mas havia um mapa rústico pendurado na parede da sua oficina, feito de retalhos, e nele ele anotava tudo o que conseguia descobrir sobre povos distantes: quantos habitantes, qual religião, se havia igreja. Enquanto batia sola, ele orava por nomes que jamais pronunciaria em voz alta na frente de gente importante.

“Sente-se, jovem”

Na teologia da época havia se instalado uma ideia perigosa: a de que a Grande Comissão fora dada apenas aos apóstolos e que, se Deus quisesse salvar os pagãos, Ele o faria sem a nossa ajuda. Quando Carey levantou a questão numa reunião de ministros, um pastor mais velho o repreendeu, mandando que se sentasse e não trouxesse mais aquele assunto.

Ele não se sentou. Em 1792 publicou um livrinho de título longo, hoje conhecido simplesmente como Uma Investigação sobre a Obrigação dos Cristãos de Usarem Meios para a Conversão dos Pagãos. Era estatística, geografia, história e teologia no mesmo volume. Era o grito de um homem que se recusava a chamar de vontade de Deus a preguiça da igreja.

Trinta de maio de 1792

Naquele dia, em Nottingham, Carey pregou sobre Isaías 54.2-3. Foi dessa mensagem que nasceu a frase que ainda hoje é gravada em placas de igrejas no mundo inteiro: “Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus.”

Não é falta de poder que trava a igreja. É falta de expectativa.

Em 2 de outubro de 1792, num quarto pequeno na casa da viúva Beeby Wallis, em Kettering, doze homens fundaram a Sociedade Missionária Batista e recolheram a primeira oferta: pouco mais de treze libras. Em 1793, Carey embarcou para a Índia.

Quarenta e um anos sem voltar para casa

A Índia não o recebeu com aplausos. Ele perdeu um filho, viu a esposa Dorothy adoecer mentalmente e passou anos sem um único convertido. Estabeleceu-se em Serampore, dirigiu uma fábrica de anil para se sustentar e mergulhou no que sabia fazer melhor: aprender língua e traduzir.

Carey traduziu as Escrituras para o bengali, o sânscrito e o marati, e participou de trabalhos de tradução, em porções, para cerca de quarenta línguas e dialetos. Fundou escolas, um colégio, publicou gramáticas e dicionários. E lutou publicamente contra a prática do sati, em que viúvas eram queimadas vivas com o corpo do marido — prática proibida na Índia britânica em 1829, com o trabalho dele entre as vozes que o tornaram possível.

O incêndio de 1812

Em 11 de março de 1812, um incêndio destruiu a tipografia de Serampore: manuscritos, tipos, dicionários, anos de trabalho reduzidos a cinzas. Carey chegou e olhou aquilo. Não amaldiçoou, não desistiu. Recomeçou. E, curiosamente, a notícia do incêndio despertou a Inglaterra: as ofertas que chegaram permitiram reconstruir tudo em tempo menor do que levara a primeira vez.

Ele morreu em 9 de junho de 1834, depois de quarenta e um anos ininterruptos na Índia. Nunca voltou para a terra natal.

O que isso nos ensina hoje

Carey não era brilhante, era constante. Não tinha estrutura, tinha um mapa de retalhos e um coração que não conseguia se acomodar. Se você está esperando talento, dinheiro ou permissão para servir a Deus, entenda: o sapateiro de Paulerspury não tinha nenhuma dessas coisas.

Tente grandes coisas para Deus. E não se sente quando mandarem você sentar.